Igreja da Misericórdia de Évora

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A Igreja da Misericórdia de Évora

Repintura das Telas

A realização das radiografias confirmou a existência da pinturas de Francisco Lopes Mendes e possibilita agora a identificação dos temas escolhidos, assim como uma descrição pormenorizada das composições das pinturas. Como solicitado pela direção da Misericórida de Évora, as obras de misericórdia corporais foram representadas através de episódios colhidos no Velho Testamento e estão intimamente relacionadas com o programa alegórico que se prolonga nos azulejos, onde se representaram as sete Obras de Misericórdia Espirituais, através de episódios protagonizados por Jesus Cristo.

Nessa descrição, seguimos não a ordem normal da apresentação das Obras de Misericórdia Corporais, mas a ordem pela qual as pinturas foram progressivamente sendo substituídas, com um breve historial da tradição iconográfica de cada um dos episódios bíblicos, quando associado à representação de cada um dos temas.

O enterro do patriarca Abraão, Francisco Lopes Mendes, 1715-1716.
Ensepvelir les morts. Extremi Judicii et operum misericordiae ad corpus pertinentium icons. Paris: Nicolas de Mathonière, c.1610-1625.

O ENTERRO DO PATRIARCA ABRAÃO

Seguindo as indicações recebidas para representar a sétima obra de misericórdia corporal, Francisco Lopes Mendes representou o momento do enterro do patriarca Abraão, como relatado no livro do Génesis (18: 1-10), um quadro que ficou aposto do lado direito da nave, ao lado da capela do Santo Cristo.

O episódio passa-se no exterior, à boca da gruta dos patriarcas, e Isaac e Ismael, ambos de turbantes, levantam o corpo do pai, envolto por um lençol, preparando-se para o depor no interior do sarcófago, decorado com elaborados relevos. Homens e mulheres do povo assistem à cerimónia e, ao fundo, os galhos torcidos de uma grande árvore sem folhas acentua o carácter pungente do momento. Ao longe, no alto da montanha, divisa-se o perfil da cidade de Hebrom.

A proximidade desse episódio com a deposição do corpo de Cristo não é acaso e tem a intenção de aproximar a figura do patriarca Abraão com a do Messias, uma ideia basilar da construção de programas iconográficos tipológicos, onde se procura estabelecer os pontos de igualdade entre a história contada nos livros do Velho e do Novo Testamento.

A escolha do Enterro do patriarca Abraão seguiu uma recomendação erudita e o tema encontra-se representado, entre as várias referências bíblicas passíveis de serem relacionadas com a obra Enterrar os mortos, na gravura Mortuos sepelire, do álbum Septem Opera Misericordiae Corporalia publicada em 1577, por Philips Galle, uma coletânea de consulta fundamental para a articulação de programas iconográficos e sermões associados aos temas da Misericórdia, que deu origem a várias publicações de divulgação

Apesar da discrepância entre as datas de publicação, é provável que esse álbum de gravuras tenha sido realizado a partir do texto do poeta e orador romano Giulio Roscio e uma versão dessas gravuras integra a obra Icones operum misericordiae cum Iulij Roscij Hortini sententiis, publicada em Roma, em 1586, com o patrocínio dos jesuítas, onde o autor compilou todos os episódios do Velho e do Novo Testamento que esclarecem os significados literais, alegóricos, morais e salvíficos de cada uma das obras de misericórdia corporais.

Passadas algumas décadas, o conjunto de episódios dessas gravuras foram reduzidos e deram origem ao álbum didáctico Extremi Judicii et operum misericordiae ad corpus pertinentium icons, publicado em Paris, de forma anónima, também pelos jesuítas, entre os anos de 1610-1625.

O PATRIARCA ABRAÃO LIBERTA LOT E SEU POVO

Para a representação do episódio que ilustra a obra Remir os cativos, Francisco Lopes Mendes representou um grupo compacto de militares, que o patriarca Abraão lidera, fazendo-se acompanhar pelo sobrinho Lot, que ainda traz as correntes como marca do cativeiro. No fim do cortejo, um soldado faz indicação a um jovem, ainda com os grilhões atados em ambos os pés, para juntar-se ao grupo, que deixa atrás de si as muralhas de Sodoma, como relata o livro do Génesis (14: 14-16).

A libertação de Lot e seu povo, o episódio final da Guerra dos Quatro Reis, encontra-se entre as várias referências bíblicas da gravura Redimere captivos do já citado album de Philips Galle e a descrição abreviada do episódio encontra-se em destaque no rodapé da gravura Visiter les prisonniers et captifs no álbum de gravuras didácticas Extremi Judicii et operum misericordiae ad corpus pertinentium icons, publicado em Paris, entre os anos de 1610-1625.

O patriarca Abraão liberta Lot e seu povo. Francisco Lopes Mendes, 1715-1716.
patriarca Abraão oferece pousada aos três anjos do Senhor. Francisco Lopes Mendes, 1715-1716.

O PATRIARCA ABRAÃO OFERECE POUSADA AOS TRÊS ANJOS DO SENHOR

O episódio em que o patriarca Abraão ofereceu abrigo aos três anjos do Senhor é narrado no livro do Génesis (18: 1-8) e Francisco Lopes representou o patriarca, já idoso, de barbas brancas, em frente a sua casa, a saldar a chegada dos três jovens com seus bordões de peregrinos. Em segundo plano, ao fundo, à direita, os mesmos jovens estão sentados à volta de uma mesa redonda, à sombra de uma grande árvore do jardim.

A associação da obra de misericórdia corporal Dar pousada aos peregrinos, com a representação desses dois momentos, encontra-se entre as várias referências bíblicas passíveis de serem relacionadas com o tema, na gravura Hospitio peregrinos excipere, do álbum Septem Opera Misericordiae Corporalia de Philips Galle e da obra de Giulio Roscio.

Está também presente como tema de fundo na gravura da cartilha da Doutrina Cristã do Padre Marcos Jorge, na edição ilustrada de 1616, o mais difundido livro de alfabetização em língua portuguesa de todos os tempos.

Encontra-se ainda, em destaque, na gravura Loger les pauvres estrangers do álbum Extremi Judicii et operum misericordiae ad corpus pertinentium icons, publicado por Nicolas de Mathonière, entre os anos de 1610-1625.

TOBIAS VESTE OS HEBREUS DE NÍNIVE

Francisco Lopes colocou no centro da composição dedicada a ilustrar a obra Vestir os Nus um homem semi ajoelhado, a vestir uma camisa, auxiliado por um nobre de turbante. Do lado esquerdo, estão duas mulheres e uma criança que recebe um chapéu e, do lado direito, um segundo nobre de turbante, com feições idênticas ao do primeiro, aproxima-se na companhia de um criado que carrega várias roupas. O encontro entre os dois grupos ocorre do lado de fora de uma imponente cidade amuralhada, pontuada por numerosos edifícios monumentais, e a representação tem como referência a narração de Tobias, pai, em que recorda o tempo passado na cidade de Nínive, de como fazia esmolas aos seus conterrâneos, distribuía pão entre os esfomeados, dava roupa aos pobres e se alguém ficasse insepulto fora das muralhas da cidade, providenciava o seu enterro.

Os versículos do livro de Tobias (1: 16-18), frequentemente associados às obras de misericórdia, encontram-se citados entre as várias referências bíblicas passíveis de serem relacionadas com a obra de distribuição de roupas aos necessitados compilados na gravura de Philips Galle, publicada em 1577, e vêm em destaque na gravura Vestir et couvrir les nuds no álbum de gravuras publicado por Nicolas de Mathonière, entre os anos de 1610-1625.

Tobias veste os hebreus de Nínive. Francisco Lopes Mendes, 1715-1716.
O profeta Isaías visita o rei Ezequiel doente e Tobias visita os presos. Francisco Lopes Mendes, 1715-1716.

O PROFETA ISAÍAS VISITA O REI EZEQUIEL DOENTE E TOBIAS VISITA OS PRESOS

Conforme a descrição tradicional da quarta obra de misericórdia corporal Visitar os enfermos e encarcerados veiculada pela cartilha da Doutrina Cristã do padre Marcos Jorge, o pintor eborense dividiu o painel em dois, separando a visita aos doentes da visita aos presos.

Do lado esquerdo, representou o rei Ezequiel doente e acamado, com o leito coberto por um rico dossel, encimado por uma coroa, com as cortinas presas aos fustes das colunas, no momento em que recebe a visita do profeta Isaías, acompanhado por um soldado. Conforme descreve o segundo livro dos Reis (20: 1-11), o rei Ezequiel aponta para o relógio de sol que está ao lado da cama, onde a sombra recuou dez graus como confirmação da graça divina que, a pedido do profeta, o vai curar da doença mortal.

Mais uma vez, esses versículos encontram-se citados entre as várias referências bíblicas passíveis de serem relacionadas com a obra Visitar os doentes e encarcerados compilados na gravura Aegrotos invisere do álbum de Philips Galle e na obra de Giulio Roscio.

As paredes do palácio dividem a cena ao meio e a visita aos presos, representada do lado direito, tem como referência o episódio em que Tobias visitava os seus conterrâneos presos e lhes dava bons conselhos, como narra o livro de Tobias (1: 15), representado na gravura Redimere captivos do mesmo álbum.